Friday, March 02, 2007

Santa Teresa de Ávila
(1515-1582)

Reformadora do Carmelo e Doutora da Igreja Universal

"A perfeição verdadeira consiste no amor de Deus e do próximo
"

1. Infância e Juventude

Teresa de Cepeda e Ahumada nasceu em Ávila (Espanha), a 28 de março de 1515. Foram seus pais: Dom Alonso de Cepeda e Dona Beatriz de Ahumada. A 4 de abril recebeu o santo Batismo.

De seus 11 irmãos, foi ela "a mais querida". Seus pais, virtuosos e tementes a Deus, a educaram na piedade e nos afazeres da casa. Aos 7 anos, junto com seu irmão Rodrigo, lia a vida dos Santos. Entusiasmados por aquelas narrações, decidiram ir às "terras dos mouros" para que os decapitassem por Cristo (Vida 1,5); mas diante da impossibilidade de realizar seus ideais de martírio, dedicaram-se a construir ermidas, tentar vida eremítica e meditar na eternidade (Vida 1,6).

Na idade de 14 anos, Teresa perde sua mãe, Dona Beatriz. A experiência prematura da orfandade leva-a aos pés da Virgem; ali pede a Maria que seja sua Mãe (Vida 1,7). Aos 16 anos, após um período de tibiezas e vaidades, em plena evolução juvenil, Dom Alonso interna Teresa durante um ano e meio no Mosteiro Agostiniano de Santa Maria das Graças. O trato com uma santa religiosa infundiu-lhe pensamentos e desejos das coisas eternas e da vida consagrada a Deus. E ela, que era inimiga da idéia de ser freira, acabou ingressando, aos 20 anos, no Carmelo da Encarnação.

2. Sua Vocação

Em 1535, a 2 de novembro, Teresa foge de casa e entra no Mosteiro da Encarnação de Ávila, para ser Carmelita (Vida, 4). Com singular elegância e graça de estilo, ela mesma nos descreve sua entrada: "Lembro-me bem, e creio que com razão, que o meu sofrimento ao deixar a casa paterna não foi menor que a dor da morte. Eu tinha a impressão de que os meus ossos se afastavam de mim e que o amor de Deus não era maior do que o amor ao meu pai e à minha família, sendo necessário fazer tamanho esforço que, se o Senhor não me tivesse ajudado, as minhas considerações não teriam bastado para que eu prosseguisse. No momento certo, o Senhor me deu ânimo na luta contra mim mesma e, assim, levei adiante o meu propósito" (Vida 4,1).


Depois de um ano de postulantado e outro de noviciado, faz sua profissão a 3 de novembro de 1537. Pouco tempo depois, por uma enfermidade misteriosa, vê-se obrigada a abandonar o Mosteiro. Neste período de repouso, entra em contato com os livros espirituais de sua época; inicia a prática da oração mental (Vida 4,6). Durante o verão de 1539, a enfermidade se agrava. Por três dias fica como morta; só a tenacidade de Dom Alonso impede que a enterrem, (Vida 5,9). Desta crise, Teresa saiu meia paralítica, e assim voltou a seu Convento em Ávila. (Vida 6, 1-2). Atribuiu o seu completo restabelecimento a uma intervenção especial de São José (Vida 6, 6-8). Mas a falta de saúde marcará toda a sua vida.


3. Reformadora do Carmelo


Deus queria formar em Teresa o tipo perfeito das esposas de Cristo, e, para esse fim, empregou 18 anos em purifica-la com toda classe de terríveis provas: enfermidades, securas, dúvidas de espirito... Tudo isso, Teresa deixou consignado em sua encantadora autobiografia.


Diante de uma imagem do Cristo atado à coluna, muito chagado e lastimoso, o coração magnânimo de Teresa se perturbou e, desfeita em lágrimas, entregou-se verdadeiramente e sem condições à VONTADE DE DEUS.

Fez voto de fazer sempre o mais perfeito, rompendo absolutamente todos os laços que a prendiam às criaturas. Desde este momento, morre Teresa de Cepeda e nasce Teresa de Jesus.

Em 1560 - quando se encontra na plenitude dos seus 45 anos - como fruto de uma intensa evolução espiritual, Teresa, com um punhado de amigas íntimas, decide-se a abraçar uma vida carmelitana mais perfeita (Vida 32, 9-10): retornar à Regra primitiva da Ordem, vida de solidão, mortificação e oração, num grupo pequeno selecionado. Na realização deste projeto, recebe a ajuda e a aprovação de seus confessores, especialmente de São Pedro de Alcântara, que influi na determinação de uma pobreza absoluta.


A 24 de agosto de 1562, o repique de uma campainha anuncia a fundação do Mosteiro de São José em Ávila e a tomada de hábito das 4 primeiras Carmelitas Descalças. O gesto de Teresa desagradou seus Superiores e o novo mosteiro teve a oposição do Conselho da cidade. Teresa teve que voltar ao Convento da Encarnação e a casinha (Mosteiro de São José) corria o perigo de ser suprimida pela autoridade civil. Tudo parecia perdido (Vida 36). Depois de uns meses de luta, vence Teresa. Em fins de 1562, o Conselho aprova a fundação; o Superior lhe permite regressar ao seu convento; um Documento de Roma dá amplas faculdades de fundadora e legisladora a Teresa de Jesus.


ambiente daquele "pombalzinho da Virgem" é maravilhoso. Porém logo o senhor tira dali Teresa, convertendo-a em "mulher inquieta e andarilha" para que semeie na Península mosteiros como este.


Porém, a alma de Teresa ainda quer mais, seu coração missionário deseja estender a Reforma das monjas também aos frades. Em Medina del Campo, entrevistou-se com o Superior do Convento, Padre Antônio de Jesus, e ganhou-o para a Reforma. Pouco depois chegou ali um frade débil e pequeno. Gostou dele a Santa, e expôs-lhe seus intentos, ganhando-o também. Chamava-se Frei João de São Matias, depois Frei João da Cruz. Cheia de alegria, disse ela às suas monjas: "Ajudem-me, filhas, a dar graças a Deus Nosso Senhor, porque já temos um frade e meio". O primeiro Convento de frades contemplativos ou descalços fundou-se em Duruelo a 28 de novembro de 1568.


Os 20 anos de aventura fundacional de Santa Teresa são difíceis de reduzir a uma síntese. Seus livros e suas cartas testemunham até que ponto ela viveu as vicissitudes e conflitos de seus mosteiros de frades e monjas.


4. Teresa e Jesus Cristo


Seus primeiros contatos com Cristo realizaram-se através da leitura e meditação do Evangelho e das Vidas de Cristo. O Evangelho era seu livro preferido, e muito o recomendava também às suas filhas.


Teresa soube aprofundar-se no conhecimento da PESSOA DE CRISTO como poucos o têm feito. Em seus maravilhosos escritos, toca todas as facetas de Sua Divina Pessoa. Ele é o arranque de sua conversão. Ele é o MESTRE cujas lições devemos necessariamente seguir e cujas ações a todo custo devemos imitar.


Chegará a dizer : "Sua Majestade não nos poderia fazer maior favor do que dar-nos uma vida que imite a de Seu Filho tão amado", (Sétimas Moradas 4,4).

Enamorada cantora do Santíssimo Sacramento: "Verdadeiramente, minha alma se fazia uma só coisa com Aquele Corpo Sacratíssimo do Senhor" (Relações 39). "É sustento ainda para os corpos este Santíssimo manjar, e grande remédio mesmo para os males corporais" (Caminho 34,6). "Quando comungo, notavelmente sinto mais saúde corporal" (Relações).

Teresa vai adiantando-se na intimidade com Cristo. Cada dia que passa, sente-se mais submergida n'Ele. Faz suas as frases de São Paulo: "Já não sou eu que vivo, mas sois Vós, Criador meu, que viveis em mim" (Vida 6,9). "Há dias em que me recordo infinitas vezes do que diz São Paulo... que me parece que nem vivo, nem falo, nem tenho querer, senão que está em mim Quem me governa e dá forças" (Relações 3).

Professou sempre uma terna devoção a Jesus Menino. Celebrava com alegria e regozijo os mistérios da Natividade. Fazia-o com cantos e poesias que ela mesma, segundo a tradição, acompanhava ao som do pandeiro e das castanholas.

A Paixão e Morte do Senhor foi sempre sua meditação favorita. Teresa contemplava todo o mistério de Cristo à luz da Ressurreição, sobre a qual tem uma rica e abundante doutrina.

5. Teresa, Maria Santíssima e São José

Juntamente com seu vivo amor a Jesus Cristo, o amor à Santíssima Virgem e a São José foram os mais importantes na vida de Teresa. Em suas obras, menciona Maria cento e cinqüenta vezes. Sendo Priora, colocou as chaves do Convento nas mãos de uma imagem de Nossa Senhora: chamavam-na sua "Priora".

Quanto a São José, basta citar este testemunho: "Não me recordo que haja pedido coisa alguma a São José que ele tenha deixado de fazer, É coisa que me espanta as grandes mercês que me tem feito Deus por meio deste Bem-aventurado Santo, os perigos dos quais me tem libertado, tanto do corpo como da alma. Queria eu persuadir a todos que fossem devotos deste glorioso Santo, pela grande experiência que tenho dos bens que se alcança de Deus".

6. Mestra de Oração

A oração ocupa um lugar central em sua vida e em sua doutrina, Ela tem influenciado profundamente no mundo, sobretudo por sua oração, por suas obras que dela tratam e pelo modo como ensina a fazê-la.

Que é oração, que é orar, para a "Mestra da oração"?
Teresa responde:
"Oração mental não é outra coisa, a meu parecer, senão tratar de amizade, estando muitas vezes tratando a sós com Quem sabemos que nos ama" (Vida 8,5).
"A oração consiste em tratar a Deus como um pai, um irmão, um Senhor e um Esposo" (Caminho 28,3).

"Para aproveitar muito neste caminho, o importante não está em pensar muito senão em amar muito; e assim o que mais desperta para amar, isto fazei" (4 M 1,7; F 5,2).

"A oração é onde o Senhor ilumina para entender as verdades" (Fundações 10,13). Teresa deixou consignado em suas obras maravilhosas um método completo de oração mental e vocal, estudando todas as etapas que deve percorrer a alma para que chegue aos últimos graus da oração.

7. Sua Partida

Teresa nem sempre gozou de muita saúde. Apesar disto, levou uma vida muito agitada e trabalhosa, sobretudo nos últimos 20 anos.
A 3 de outubro, pela tarde, pediu e lhe deram o Santíssimo, como viático. Disse para suas monjas, que ali estavam ao redor de seu leito de morte: "Filhas e senhoras minhas, perdoem-me o mau exemplo que lhes tenho dado, e não aprendam de mim, que tenho sido a maior pecadora do mundo e a que mais mal guardou a Regra e Constituições. Peço-lhes, filhas minhas, as guardem com muita perfeição e obedeçam a seus Superiores".
Com doçura e satisfação repetia:

"Enfim, Senhor, sou FILHA DA IGREJA".
Morreu a 4 de outubro de 1582. Aquele mesmo dia, começou-se a contar 15, pela reforma do Calendário, e por este motivo, celebra-se seu glorioso trânsito a 15 de outubro. Contava ela a idade de 66 anos, 6 meses e 7 dias. Viveu na Ordem da Virgem do Carmo 47 anos, 27 na antiga observância e 20 na Reforma descalça, da qual deixou fundados 15 conventos de religiosos e 16 de religiosas, com Província aparte e Provincial próprio, ficando assim assegurada sua obra.

8. Teresa: "filha da Igreja"

Amou tanto a Igreja, que por ela estava disposta a morrer: "Sabia bem que, em matéria de fé, ou para não ir contra a menor cerimônia da Igreja, ou por qualquer verdade da Sagrada Escritura, estava pronta a morrer mil vezes" (Vida 33,5).

Teresa trabalhou pela união dos cristãos e por eles orava e se sacrificava:
Como vejo as grandes necessidades da Igreja, estas me afligem tanto que me parece coisa de pouca importância o ter pena por outro motivo" (Relações 3,7).

Qual é a finalidade da oração e do sacrifício? Tem razão de ser a vida contemplativa? Responde a Mestra Teresa de Jesus, dirigindo-se às suas monjas e a nós com elas: "Que todas ocupadas em oração pelos que são defensores da Igreja e pregadores e letrados que a defendem, ajudássemos no que pudéssemos a este Senhor meu" (Caminho 1,2).


"E quando vossas orações e desejos, sacrifícios e jejuns não se empregarem nisto que digo, pensai que não alcançais nem cumpris o fim para que vos juntou aqui o Senhor" (Caminho 3,10).

9. Cronologia

1515 - 28 de março: nasce Teresa de Ahumada em Ávila; 4 de abril: batismo

1519 - nasce seu irmão, Lourenço

1520 - nasce seu irmão, Antônio

1521 - nasce seu irmão, Pedro

1522 - foge com Rodrigo para a terra dos mouros: nasce seu irmão, Jerônimo

1527 - nasce seu irmão, Agostinho

1528 - novembro/dezembro: falece sua mãe, Doña Beatriz

1531(?) - casamento de sua irmã mais velha, Maria, com Martin de B.; entra em

Santa Maria da Graça

1533(?) - convalescente em Hortigosa y Castellanos de la Cañada

1534-35 - partem para a América Hernando (Peru) e Rodrigo (Rio da Prata)

1535 - 2 de novembro: foge de casa para a Encarnação

1536 - 2 de novembro: toma o hábito

1537 - 3 de novembro: professa como carmelita no convento da Encarnação

1538 - outono: sai enferma do convento da Encarnação. Lê o Tercer abecedario

1539 - primavera: em Becedas; 15 de agosto: colapso de quatro dias na casa paterna; regressa ao convento da Encarnação; paralítica durante "quase três anos"

1542 - curada, abandona a oração

1543 - 24-25 de dezembro: morre seu pai, Dom Alonso; à época, Pe. Vicente Barrón é seu diretor espiritual

1546 - 18 de janeiro: batalha de Iñaquito; morre seu irmão, Antônio, devido aos ferimentos

1548 - verão: peregrina ao santuário de Guadalupe

1554 - quaresma (?): converte-se perante um Cristo chagado

1554-55 - primeiros confessores jesuítas (Cetina, Prádanos)

1556 - confessor: Pe. Baltasar Alvarez

1557 - colóquio com São Francisco de Borja

1559 - "Eu te darei o livro vivo": visões de Jesus Cristo

1559-60 - visão do inferno; projeto de fundação do convento São José; encontro com São Pedro de Alcântara; escreve a primeira Relação

1561 - trâmites para a fundação; 24 de dezembro: ordem de mudar-se para Toledo para a casa de doña Luisa de la Cerda "

1562 - janeiro-junho em Toledo; 7 de fevereiro: rescrito apostólico autorizando a fundação; junho: conclui a primeira redação da Vida; 24 de agosto: inaugura a fundação do convento São José

1563 - priora do convento São José

1564 - 21 de outubro: primeiras profissões no convento São José

1565 - 17 de julho: bula de Pio IV, pobreza do novo Carmelo

1566 - redige Caminho de Perfeição; agosto (?): visita do Pe. Maldonado, missionário na Índia

1567 - 18 de fevereiro: Rubeo inicia a visita ao Carmelo de Ávila; 27 de abril: Rubeo concede-lhe autorização para fundar; 13 de agosto: sai para a fundação de Medina

1567 - abril: fundação de Malagón; 9 de agosto: de Medina a Valladolid, com frei João da Cruz; 15 de agosto: fundação do Carmelo de Valladolid; 28 de novembro: fundação dos frades descalços em Duruelo

1569 - 14 de maio: fundação do convento de Toledo; 22 de junho: fundação do convento das monjas em Pastrana; 26 de agosto: nomeação de visitadores dominicanos

1570 - 1º de novembro: fundação em Salamanca

1571 - 25 de janeiro: fundação de Alba de Tormes; 6 de outubro: priora do convento da Encarnação, em Ávila

1572 - no final: escreve Resposta a um desafio; 18 de novembro: graça do matrimônio espiritual

1573 - 25 de agosto: começa a redação das Fundações em Salamanca

1574 - março: viaja de Alba para Segóvia com João da Cruz; 19 de março: fundação de Segóvia; 7 de abril: chega a Segóvia a comunidade de Pastrana; 6 de Outubro: termina no convento da Encarnação o seu mandato de priora; regresso a São José de Ávila

1575 - 24 de fevereiro: fundação de Beas; abril-maio: encontro com Gracián em Beas; 29 de maio: fundação de Sevilha; julho: Inquisição toma o autógrafo de Vida; 12 de agosto: chega da América à Espanha Lourenço de Cepeda; denunciada à Inquisição de Sevilha

1576 - 4 de junho: viaja de Sevilha a Toledo; verão: escreve Modo de visitar os Conventos

1577 - janeiro-fevereiro: episódio do Vejámen; 2 de junho: começa a escrever O Castelo Interior; 27 de julho: em Ávila, o Carmelo de São José passa à jurisdição da Ordem; 29 de novembro: conclui O Castelo Interior; 24 de dezembro: cai da escada e desloca o braço esquerdo

1578 - em Ávila, chegam os Breves condenatórios de Sega (23 de julho-20 de

dezembro)

1579 - 6 de junho: Quatro avisos aos Descalços; viaja a Medina, Valladolid, Salamanca, Alba, Ávila, Toledo e Malagón; 24 de novembro: chega a Malagón

1580 - fevereiro: funda em Villanueva de la Jara. Viaja de Villanueva a Toledo, Madrid, Segóvia; 22 de junho: Breve de separação dos Descalços; 26 de junho; morre seu irmão, Lourenço, em La Serna; agosto: gravemente enferma em Valladolid; 20 de dezembro: fundação de Palencia

1581 - 3 de março: capítulo de Alcalá; escreve a Relação 6; 3 de junho: fundação de Soria; viaja para Soria, Osma, Villacastin, Ávila; 10 de setembro: priora no convento São José de Ávila

1582 - janeiro: sofrida viagem de Ávila a Burgos; 20 de janeiro: São João da Cruz e Ana de Jesus fundam em Granada; abril: sai a primeira expedição de carmelitas missionários para a África; 19 de abril: fundação de Burgos; 26 de julho: deixa Burgos; viagem para Palencia, Valadolid, Medina, Alba de Tormes; 20 de setembro: chega a Alba de Tormes, enferma; 4 de Outubro: morre em Alba de Tormes.

10. Doutora da Igreja Universal


Como prova de tudo o que se disse foi o anúncio que Paulo VI lançou ao mundo no dia 15 de Outubro de 1967 comunicando o seu propósito de declarar Santa Teresa "DOUTORA DA IGREJA UNIVERSAL".

Aquela notícia foi totalmente inesperada e surpreendeu o mundo inteiro já que até ali nenhuma mulher tinha merecido tal distinção oficial.

A primeira a ser surpreendida do que saía da sua pena tinha sido a própria Santa: "Vejo então claramente que não sou eu quem o diz, nem o ordeno com o entendimento, nem sei depois como acertei em dizê-lo" (V 14,9). Ou bem quando assegura: "Muitas coisas das que escrevo aqui não são da minha cabeça, senão que mas dizia este meu Mestre celestial" (V 39,8). Com efeito, podemos dizer que a sua doutrina foi inspirada por Deus.

E chegou o dia assinalado, 27 de Setembro de 1970. O Papa Paulo VI, em presença das delegações oficiais do mundo inteiro e de centenas de milhares de peregrinos, fez a soleníssima proclamação:


"Por conseguinte, com firme conhecimento, e depois de ponderada deliberação, com a plenitude da potestade apostólica, proclamamos Santa Teresa de Jesus, virgem abulense, Doutora da Igreja Universal."

Com esta suprema referenda outorgada à sua "mensagem", terminava exatamente o fim da sua "peregrinação".

Na bela homilia que o Papa Paulo VI pronunciou naquele memorável dia, depois de recordar os maravilhosos segredos da graça que viveu Santa Teresa, o Pontífice acrescentou: "Santa Teresa foi capaz de contar-nos estes segredos até o ponto de ser considerada como um dos supremos mestres da vida espiritual. Não é em vão que a estátua da fundadora Teresa colocada nesta Basílica leva a inscrição que tão bem define a santa : "Mãe dos Espirituais".

11. Obra Literária

Os escritos da Santa têm como tema a sua vida e numerosa doutrina sobre conselhos e normas de vida espiritual e religiosa. Não escreveu nenhum dos seus livros por desejo próprio, mas por imposições de seus superiores e confessores.
Fizeram-se dos mesmos milhares de edições em muitos idiomas. A primeira edição em castelhano data de 1588 e foi apresentada por Frei Luís de Leão com este significativo comentário:

"Na forma de dizer, e na pureza e facilidade do estilo, e na graça e na sobriedade das palavras, e na elegância desafetada que deleita em extremo, duvido eu que haja em nossa língua escritura que se lhe iguale. E assim, sempre que os leio, me admiro de novo. Omitindo outros muitos e grandes proveitos que encontram os que lerem estes livros, dois são, em minha opinião, os que maior eficácia produzem: um, o facilitar no ânimo dos leitores o caminho da virtude; e o outro avivá-los no amor para com ela e para com Deus".
Suas obras maiores:

"Livro da Vida"

Consta de 40 capítulos. Tinha 47 anos quando a escreveu. São páginas introspectivas e testemunhais. Com amplo filão de autocrítica e muito espaço para a doxologia: cantar, como na Bíblia, as misericórdias de Deus. Daí provem os dois planos ocupados pelo relato autobiográfico: um de superfície, suas peripécias humanas e religiosas; outro de fundo, o drama inefável de sua experiência mística.

"Caminho de Perfeição"

Escreveu-o por mandado do Padre Báñez, entre os anos 1564-1567, Consta de 42 capítulos, É mais ascético que místico. Ensina as monjas como viver sua vida, o sentido da mesma e a forma de cultiva-la com a oração mental. Dá indicações para a prática da vida cristã na consagração religiosa e no ideal do Carmelo.

"Castelo Interior" ou "As Moradas"

Escreveu-o por mandato do Padre Gracián. A mesma Santa definiu este livro como "uma jóia". Descreve o caminhar da alma em sete etapas diferentes até a mais íntima união com Deus. Nele se propõe a chegar ao mais profundo do mistério cristão e acenar para o pleno desenvolvimento da vida interior.

"Fundações"

Foi escrito à medida em que se iam fundando os seus conventos. São pois um tesouro documental de indiscutível valor; mas como as suas páginas se encontram semeadas de abundantes digressões de matiz espiritual e psicológico, adquirem por isso mesmo um lugar relevante neste tipo de literatura. Com uma simplicidade genial vai alinhavando um grande número de fatos que lhe aconteceram, por meio dos quais se constata que, olhando para o céu, é a mais divina das almas, olhando para a terra, é a mais real e humana das mulheres. O Autógrafo original conserva-se também no Escorial.

"Epistolário"

Calcula-se que só nos seus últimos vinte anos escrevesse de quinze a vinte mil cartas. Destas apenas se conservam meio milhar. Estão dirigidas à sua família; ao P. Jerónimo Gracián e à Priora de Sevilha, Maria de S. José; a outros carmelitas descalços e descalças; a diversos teólogos, religiosos e sacerdotes; a personalidades importantes do seu tempo como o Prior Geral da Ordem, o rei Filipe II, etc; e, finalmente, a diversos colaboradores da sua obra reformadora.
Todas são de uma simplicidade e naturalidade encantadora. Em todas elas expõe o seu pensamento com uma despreocupada transparência e sinceridade que põe em relevo o seu extraordinário talento e a sua amplitude de coração.

Obras menores:

"Relações espirituais"
Vem a ser um relato das suas próprias vivências interiores. Os Autógrafos estão espalhados por grande parte das nações de Europa e América. Um considerável número destes manuscritos encontram-se no convento da Santa em Ávila.

"Pensamentos sobre o amor de Deus"
Segundo o P. Silvério, começa aqui a declarar a veneração com que se hão de ler os livros Sagrados. A seguir trata da verdadeira paz e da oração de quietude e de união. São cerca de 7 capítulos. O Autógrafo não se conserva. Foi lançado ao fogo pela própria autora porque lho ordenaram os seus medíocres conselheiros.

"Exclamações da alma"
Escritas em data incerta, foram publicadas pela primeira vez em 1568 por Frei Luís de Leão. São a expressão mais viva do amor de Deus. Apenas nos Solilóquios de Santo Agostinho podemos encontrar uma obra que possa competir com esta.

"Modo de visitar os Conventos"
Escreveu-o a pedido do P. Gracián com a fim de que, dada a sua grande experiência, as suas religiosas tirassem o maior proveito das visitas dos seu superiores. Também são uns "avisos que há de guardar o Prelado que quiser obter fruto nas monjas com as suas visitas". Escreveu-o em Toledo, durante o mês de Agosto de 1576. O original encontra-se no Escorial.

"Poesias"
Compostas, não com vista à sua publicação, mas como passatempo das suas monjas nos recreios ou para celebrar algum acontecimento, tornaram-se conhecidas algumas delas como: "O meu amado para mim", "Vossa sou" e "Morro porque não morro".

12. Análise das Obras Literárias

a) O Livro da Vida
Gênese e composição

A Vida é o primeiro livro escrito por Madre Teresa. Brotou de sua pena em plena maturidade, quando ela se aproximava dos 50 anos, depois de uma década de intensa e tormentosa vida mística.

A Autora possuía o dom da palavra, tão fluida e vivaz em sua pena como em seus lábios. Nem a gramática nem o código de normas sintáticas eram seu forte. Mas ela se bastou a si mesma para forjar um estilo plástico, inquieto, brilhante e eficaz, mais fascinante na linguagem oral que na escrita, apesar de ter preservada no papel a mesma força que possuiria em seus lábios. Como escritora, ela demonstrou- se especialmente dotada para o relato e a descrição, como amplamente evidenciado nos seus livros posteriores.

A Vida, que devia ser puro relato, teve uma gestação lenta e trabalhosa. Foi fruto de prolongados forcejos e autênticas dores de espírito, através de um processo cujas etapas não nos será possível reconstruir. O Livro da Vida brotou na terra difícil da vida mística da própria Autora, primícias da década de turbulentas experiências interiores, crisol no caminho místico, inédito na vida das pessoas e na elaboração dos escritos espirituais.
Fatos geradores

De 1555 a 1562, uma série de graças místicas invade a vida da Santa, transforma as mais profundas convicções de sua alma e por fim a confronta com a necessidade de empunhar a pena para referir suas desconcertantes experiências, a fim de submetê-las ao controle de técnicos profissionais, capazes de apurar os fatos e autenticar suas experiências interiores.
Mas a Santa não teve sorte: sua alma e seus papéis não caíram em boas mãos. Os conselheiros de primeira hora (um cavaleiro espiritual, Salcedo, e um padre secular, Daza) não estavam preparados para afrontar fenômeno de tamanha envergadura. Receosos da Santa e da própria incompetência, obrigaram sua alma a peregrinar de mão em mão, por entre consultores, jesuítas e dominicanos, que se alternaram na demanda de minuciosos informes escritos.


O mais penoso era que a pobre monja podia referir seus pecados, de palavra e por escrito; mas "o outro" - a onda de graças e de vida nova que se apoderava de sua alma - era simplesmente indizível, refratário a toda palavra. Uma barreira intransponível se interpunha entre suas experiências místicas e o papel disposto a recolhê-las. Ou mais exatamente, entre as experiências e suas próprias idéias a respeito delas: nem as compreendia, nem se entendia a si mesma. Eram vivências inexprimíveis mediante vocábulos, inaferráveis ao próprio pensamento: "Se entende, não entende como entende" (V 18,14).

A mística neófita lutou contra a própria impotência; em vão. Teve de recorrer a um livro que falava de coisas similares às suas e ceder-lhe a palavra: nele sublinhou e anotou as passagens que pudessem dizer algo de semelhante ao que lhe ocorria e o entregou a seus examinadores. Tratava-se da Subida del Monte Sión, do insigne franciscano Bernardino de Laredo (V 23,12).
Seu caso era, nem mais nem menos, o de todos os místicos: a transcendência, nocional e psicológica, das experiências interiores se traduz em uma situação de inefabilidade.


O emaranhado de conceitos e pobres noções naturais, profanas ou simplesmente humanas, não serve para captar e reter as vivências de ordem superior filtradas no espírito; nem pode servir de veículo transmissor. Total inefabilidade: impotência expressiva e comunicativa.

Em Santa Teresa, o fenômeno revestiu um caráter mais relevante, pela pujância e abundância das graças místicas da primeira década, e pela facilidade e plenitude expressiva que sobreveio ao cair a mordaça da inefabilidade: "Por vários anos li muitas coisas e nada entendi; depois, apesar do que Deus me dava, eu não sabia dizer uma palavra que exprimisse essa situação, o que não me custou poucos sofrimentos... Para dizer a verdade, mesmo falando com muitas pessoas espirituais que queriam me explicar o que o Senhor me dava, para que eu o soubesse dizer, minha rudeza era tanta que pouco nem muito aproveitava" (V 12,16).

A chegada de novos conselheiros impõe novas tentativas, que dão como resultado as primeiras Relações escritas. Quando São Pedro de Alcântara entra em cena, a Santa mística capta a sintonia espiritual do novo consultor ("vi que me entendia por experiência"), mas permanece reduzida à própria impotência ou a um mísero balbucio do inefável.

Até que, por fim, cai a cortina da inefabilidade, e ela passa a ser capaz de entender e dizer. E dessa nova capacitação nasce o Livro da Vida.

Ela mesma dá a explicação carismática da origem de sua obra. Segundo ela, a escala que conduz da experiência mística ao escrito místico consta de três passos: "Um favor é receber a graça do Senhor, outro é entender qual o favor e qual a graça, e outro ainda saber entender e explicar como é" (V 17,5). E, pena em punho, constata por si mesma que não é ela que elabora o que escreve.

Tudo isso acontecia em 1562 (primeira redação de Vida). O livro causou impacto. Ante aquelas páginas de indescritível dramatismo espiritual, os examinadores ficaram atônitos.

Os mestres, ainda sem depor de todo a toga de juizes do espírito, passam ao lugar de discípulos. Sua ordem de rescrever o livro traduzia um vivo anseio de aprendizado: precisavam ler e repassar aquelas páginas, a fim de adentrar no espírito do livro e da Autora. Ela o compreendeu e aceitou.


O novo plano era não apenas passar para o papel a história de sua própria alma, mas comunicar seu próprio espírito. A história de sua Vida passa a ser veículo do caudal de graças que a inundara.

Assim nasceu o texto definitivo, que atualmente possuímos. A Autora o liberou do penoso cânon do puro relato confessional e o abriu à comunicação dos ideais e da própria tensão espiritual, elevando-o ao altiplano doutrinal da teologia mística. Introduziu em sua obra um tratado dos graus de oração, sob o símbolo sedutor de quatro maneiras de regar um jardim; para o bem das futuros leitoras de seu novo Carmelo, incluiu a história da fundação do mosteiro de São José; completou a exposição com o relato das graças finais e a forma de vida em que haviam desembocado os favores místicos anteriores e deu a seu escrito ares de livro, dividindo-o em quarenta capítulos.
Mensagem


O Livro da Vida é um testemunho pessoal e uma tese. A Autora reflete sobre seu próprio caso para elevar-se a uma lição universal.
Para "dar testemunho", examina sua consciência e analisa sua alma, em um supremo esforço de simplicidade e de verdade; descreve e refere, até fazer de seu livro uma confissão. Pecados e graças, "bens e males" constituíam o núcleo primitivo do relato e subsistem como matéria-prima da redação definitiva, apesar de aqui a invasão do místico ter rompido o equilíbrio entre esses dois elementos, com evidente predomínio das graças sobre os pecados. E isso não só porque em seu caso pessoal prevaleceu o místico sobre o ascético, mas porque a razão de ser e o verdadeiro objeto de seu "testemunho" era o sobrenatural: atestar a existência e o valor das realidades sobrenaturais de seu mundo interior; para depois afirmar, num plano universal, a presença e excelência dessas realidades sobrenaturais em toda vida interior.



Essa combinação de testemunho e doutrina caracteriza todo o magistério teresiano e impõe à Autora uma atitude pedagógica especial, nítida, precisa. Ela tem a clara consciência de não se achar numa cátedra, nem de dirigir-se a pobres aprendizes sentados a modo de discípulos. Eles são teólogos e juizes, que estudarão e julgarão inexoravelmente. Impossível adotar um tom doutoral.


Além disso, ela sabe que não sabe escrever, que não conhece o valor dos termos mais exatos para dizer o que diz; não sabe filosofia nem teologia; não possui a mágica pedra de toque que é a Sagrada Escritura.

Mas conta com vantagens que compensam amplamente essas lacunas. Tem a certeza de haver chegado, pela via da experiência, a um saber incontestável. Por isso não teme medir forças com qualquer letrado.


Sabe que Deus a cumulou com um tesouro de dados sobrenaturais que não necessita de sistemas nem de teorias para ser exposto. Sabe, ainda, que nem todos possuem, como ela, o carisma de dizer o inefável místico, concedido pelo Senhor depois de longos anos de balbucios e impotência expressiva. O carisma não só impregnou de unção sua palavra viva, mas conferiu uma espécie de magia e poder de transmissão a sua palavra escrita.


Por isso escreve: para contagiar outros com sua loucura, para fazê-los padecer de seu mal. Não pretende teorizar, mas atrair para a órbita radiosa da vida que descobriu. Sabe que faz escola. E, longe de soltar-se pelos domínios aventurosos do puro saber, aprofunda-se nos caminhos do espírito até a raiz estremecida do advento do sobrenatural no humano.

Mais que teologia espiritual, seu livro é pedagogia mística: sua mensagem foi vivida, antes de ser escrita.

O Livro da Vida não pode ser considerado uma autobiografia no sentido técnico da palavra. Ele não se atém à linearidade cronológica dos fatos. Antes, deixa-se levar pela força do Espírito Santo, que impulsiona a Autor a extravasar todo o amor que se agita no seu coração. É espontâneo, familiar, uma autêntica fotografia do seu mundo interior. Os mais íntimos sentimentos que nortearam a vida de Teresa menina, jovem, carmelita são expressos com o sabor de uma longa e detida confissão.

Trata-se de uma narrativa em tom coloquial, que seduz o leitor, conduzindo-o a envolver-se plenamente nos projetos dessa monja audaciosa.
A redação do Livro da Vida não apresenta esquema preestabelecido, ocorrendo inevitáveis repetições, que não cansam porque apresentam prismas sempre novos.

A Vida é considerada por muitos teresianistas o acesso pelo qual penetramos o mundo de Teresa e descobrimos os fenômenos místicos, as graças particulares, o limiar do Divino, a transmutação de uma mulher de gênio forte e vigoroso, animada pela força do Espírito de Deus, que a quer como fermento de vida nova na Igreja.

Teresa é uma reformadora da vida religiosa do seu tempo. O seu espírito crítico leva-a a seguir novos caminhos. Com a ousadia que a celebrizou, não poupa observações rigorosas aos clérigos e bispos do seu tempo.

Neste livro, para além da riqueza de temas, Teresa concede particular atenção à oração, sem deixar de abordar a triste e difícil situação da Igreja dividida e os problemas da Espanha do século XVI. Os dominicanos e jesuítas são freqüentes parceiros de diálogo, bem como São Pedro de Alcântara, grande amigo de Teresa, cujas extravagantes penitências a comoviam, sem movê-la à imitação.
No Livro da Vida, Teresa, como verdadeira mestra e pedagoga, nos conduz suavemente ao encontro dos mistérios de Deus. O Deus de Teresa não está ausente de nossa vida. Caminha e faz história conosco, vive dentro de nós e nos envia para dar testemunho de seu amor aos homens.

b) O Caminho da Perfeição

Composição do Livro

O Caminho de perfeição é um livro de formação espiritual escrito por Santa Teresa para suas monjas, o primeiro livro formativo que nasceu de sua pena e provavelmente o melhor. Foi composto pela filial insistência das destinatárias. Privadas da leitura daquele maravilhoso livro da Madre que andava de mão em mão no meio dos confessores - a Vida -, solicitaram para si páginas espirituais: conselhos práticos, iniciação à vida de oração, normas para a vida reformada. A insistência foi tanta que, por fim, a Madre se rendeu a seus desejos: "Era tamanho o desejo em que as vi, e a importunação, que me determinei a fazê-lo" (prólogo primitivo).

Mas essas páginas briosas, vazadas em corajosa grafia, provavelmente não chegaram às mãos das destinatárias, por um fato de alcance histórico: naquele tempo, os espirituais espanhóis e os livros de oração estavam submetidos a dura prova. Em 1559, a Inquisição espanhola publicava um Índice de livros proibidos, no qual se incluíam obras de autores tão insignes quanto João da Cruz, Francisco de Borja e Padre Granada. Temas doutrinais prediletos da Santa, como a oração mental, contemplação, recolhimento, quietude, eram olhados com desconfiança. A tese mesma sobre que se baseava seu ideal de reforma - "valor daquele grupinho de humildes mulheres com vocação contemplativa, postas a serviço da Igreja" - era considerada com suspeita.

Tudo isso influenciou o ânimo da Madre, desviando-lhe a pena para uma polêmica velada, mas robusta e vibrante. Unção e singeleza alternam-se então em suas páginas com fortes tons de polêmica: formidável defesa daquelas "mulherzinhas" virtuosas que ousavam embarcar na aventura da contemplação; apologia da oração mental e firme rejeição de quantos procuravam incutir-lhes medo; exposição demorada e reticente da oração de recolhimento; explicação da oração de quietude; amplo comentário do pai-nosso; tudo configurando um livro que ninguém poderá "proibir" nem arrebatar a suas monjas.


Páginas de tamanha audácia não podiam passar impunes pela censura. E não passaram, apesar de terem sido submetidas a censor tão benévolo e admirador da Autora quanto Padre García de Toledo. O erudito dominicano leu atentamente o manuscrito, riscou páginas inteiras, fez freqüentes anotações à margem, e por fim o devolveu à Madre, para que o refizesse.


As observações do censor recaíam sobre várias passagens polêmicas, algumas delas claramente alusivas às proibições inquisitoriais; corrigiam vários textos que beiravam - ao ver da época - erros teológicos, por exemplo a interpretação acomodatícia do Sl 8,8 que a Santa aplica aos contemplativos perfeitos, e o censor desaprova. O censor ainda desautoriza a interpretação do panem nostrum e vai contra a afirmação da Santa de que as injúrias feitas a ela não mereciam ser chamadas de ofensas, nem demandavam perdão.


Os reparos do censor eram muitos e variados. Para remediá-los não bastava arrancar umas quantas páginas do caderno, antes de entregá-lo às leitoras. Santa Teresa teve de refazê-lo integralmente, tarefa penosa que executou com decisão, emendando todo o livro e, em grande parte, redigindo-o de novo. Isso sucedeu com toda probabilidade em 1566, quando ainda não existia outro mosteiro além do de São José de Ávila.


O segundo caderno superou a prova da censura, feita ainda por Padre García de Toledo. Teólogo consciente de seu papel e da gravidade do assunto, releu o escrito, sem pressa e com escrupulosa atenção. E dessa vez ainda não perdoou à Santa pequenos deslizes doutrinais, seguramente não tão pequenos para a pupila dos teólogos tridentinos, nem para a sensibilidade dos leitores e inquisidores daqueles dias. A solução foi arrancar algumas páginas do caderno, substituindo-as por outras, ajustadas às diretrizes do censor e redigidas pela Autora. Com isso, o livro pôde finalmente ser lido pelas monjas de São José.
Doutrina

Ao revisar sua obra, já aprovada por Padre García de Toledo, a Autora escreveu na página inicial, à guisa de título: "Este livro contém avisos e conselhos que Teresa de Jesus dá às irmãs religiosas e filhas suas dos mosteiros que... fundou de acordo com a Regra primitiva de Nossa Senhora do Carmo".


Só mais tarde esses "avisos e conselhos" passaram a ser conhecidos como "Livro chamado Caminho de perfeição". Esta segunda epígrafe não surgiu da pena da Santa, mas ela a conheceu e a ela não se opôs.


Os dois títulos são exatos, com antecedentes na tradição espiritual cristã e de palpitante atualidade. Tema central do Caminho é a "iniciação da carmelita à vida de oração". Com olhar certeiro e intuitivo, a Autora começa fixando o fim da vida carmelitana: valor apostólico da vida contemplativa, função eclesiológica da oração no Carmelo de São José, claro ideal de auxiliar a Igreja (atacada por cismas, heresias e claudicações inconfessas).


E a inserção na vida da Igreja que ela recomenda é completa, concreta, baseada na importância da vida interior e na eficácia da oração. Mesmo que tão alto ideal haja de encarnar-se num exíguo ajuntamento de pobres mulheres - as dez ou doze do mosteiro -, a Autora não duvida em caracterizá-lo com tons decisivamente combativos.


Para alcançar esse objetivo, é preciso plantar a oração no sólido alicerce de virtudes práticas: amor fraterno, desapego de todo o criado, humildade; todas cercadas pela fortaleza.

A partir de tais princípios se abre o caminho da oração. A Autora pede que se suplante a oração apenas de palavras. Preconiza a verdadeira oração vocal - palavras com sentido e ressonância interior - como excelente caminho de ingresso à oração mental, verdadeiro caminho real que leva ao Senhor. Concebida e ensinada à maneira teresiana, não como meditação metódica e sim como "trato de amizade com Deus", a oração mental deve conduzir suavemente à oração de recolhimento, preâmbulo contemplativo de fácil alcance. Por fim, a oração de recolhimento será a melhor disposição para a contemplação infusa e para o fulgurante séquito de graças místicas que a cortejam. Oração vocal, oração mental, recolhimento, quietude infusa, contemplação perfeita são os elos dessa cadeia de ouro.

A Santa foi bordando sua doutrina sobre a trama de quatro ou cinco alegorias que a tomam diáfana e sugestiva: alegorias do castelo e do campo de batalha, do caminho e da água viva, do jogo de xadrez, do mestre de oração...

O Caminho de perfeição é o livro de Santa Teresa de Jesus que tem tido mais sorte: foi o mais burilado e amado por ela. Um tratado de espiritualidade que, com arte magistral, intuições profundas e transbordando de experiência, vai indicando o caminho a seguir para chegar à perfeição.

O Caminho de perfeição, nas duas redações, apresenta um conteúdo aparentemente restrito à vida monástica carmelitana, por dirigir-se a um pequeno grupo de pessoas sem maior influência na vida da Igreja. Mas na verdade, trata-se de um livro de grandes horizontes: rompe os muros do Carmelo para tornar-se, pouco a pouco, patrimônio da humanidade e clave fundamental para os que almejam chegar a uma experiência calma, serena e decisiva de Deus.
Temos em mãos um dos mais belos manuais de espiritualidade de todos os tempos, o Caminho para adentrar o mistério, o incompreensível.

Madre Teresa sabe que o fim da vida carmelitana é a oração, ao mesmo tempo em que tem consciência de que é bem difícil viver o relacionamento com Deus se faltarem pessoas que possam orientar e ajudar nessa via espiritual. Por isso, esboça os seus "Avisos". Essa é uma doutrina segura, simples e compreensível que infunde em quem a segue a certeza interior de que Deus vive em nós pelo amor e ama com imenso amor. O Caminho de perfeição continua a ser no Carmelo e na Igreja a obra mais ilustrativa de Santa Teresa, alimento substancioso para quem hoje resolva se aventurar na busca da experiência de Deus.

c) O Castelo Interior

O Castelo interior é o ensinamento maior da Autora. Fruto maduro de sua última jornada terrena, reflete o estádio definitivo de sua evolução espiritual e completa a mensagem das obras anteriores, Vida e Caminho.


O relato autobiográfico da Vida tem agora uma nova versão, mais sóbria e discreta, disfarçada no anonimato e integrada pelas experiências da última década.

E a pedagogia do Caminho dispensa agora as hesitações da iniciação à vida espiritual para mergulhar no profundo do mistério: a plenitude da vida cristã.
Para completar a lição, virão depois as Fundações e as Cartas, para referendar a consigna das sétimas moradas: que a suprema vivência mística não faz o cristão se abstrair, mas o mantém pés em terra, em diálogo com os irmãos.
Ponto de partida

O primeiro projeto do Castelo se junta com a autobiografia teresiana. Vista à distância de doze anos, a Vida parecia incompleta. Era preciso retomar o relato, ultimá-lo... talvez refazê-lo sob novo enfoque teológico.

Os últimos doze anos haviam trazido um caudal de experiências nítidamente superior às que tinham sido historiadas na Vida. É certo que estavam fragmentariamente anotadas nas Relações, mas não se tratava apenas de ajuntar novos materiais. As vivências do último qüinqüênio - especialmente a partir do magistério de São João da Cruz (1572) - haviam subministrado nova chave de interpretação a todo o arco de sua vida. Com visão mais unitária e profunda. Com maiores possibilidades de síntese teológica.

Num primeiro momento, o projeto fracassou. Dom Alvaro de Ávila, a quem o pedira, não lhe enviou o exemplar da Vida e dali a poucos dias o excesso de trabalho alquebrou a saúde da Santa. Foi uma crise de esgotamento, com profundas seqüelas físicas. Grandes dores de cabeça, que a fazem temer ficar de todo inválida. Ela tem de recorrer aos préstimos de uma amanuense para despachar a correspondência, por ordem expressa do médico. Assim se desvanece o projeto de refundir a Vida.

A ordem de escrever mais ou menos refeita do achaque de fevereiro, a Santa se encontra em fins de maio com Padre Gracián. Os dois conversam no locutório do Carmelo de Toledo. Ele está de passagem, indo de Andaluzia para Madrid, convocado pelo núncio. Ela cumpre a ordem de reclusão imposta pelo Capitulo Geral da Ordem. Um pedaço da conversa chegou até nós, registrada pelo próprio Gracián:


"Sendo eu seu Prelado e tratando uma vez em Toledo muitas coisas de seu espírito, ela me dizia:


- Oh! Como esse ponto já está bem escrito no livro de minha Vida que está na Inquisição!

Eu lhe disse:


- Já que não podemos tê-lo... escreva outro livro e diga a doutrina comum, sem nomear a quem sucedeu o que ali disser.


E assim mandei que escrevesse este livro das Moradas, dizendo-lhe, para melhor persuadi-la, que tratasse disso também com o Doutor Velázquez, que a confessa algumas vezes. Ele também lhe ordenou fazê-lo" (Notas de Gracián in Antonio de San Joaquin, Año teresiano, t. VII [1758], p. 149).


Anos depois, Gracián completa o informe:


"Estando em Toledo, eu persuadia Madre Teresa de Jesus com muita insistência, para que escrevesse o livro que depois escreveu, que se chama As moradas. Ela me respondia, do mesmo modo que disse muitas vezes em seus livros, quase com estas palavras:


- Para que querem que eu escreva? Escrevam os letrados, que estudaram. Sou uma tonta e não saberei o que falar: trocarei uma palavra por outra e com isso causarei dano. Já se escreveram muitos livros sobre coisas de oração. Pelo amor de Deus, deixem-me fiar em minha roca e seguir meu coro e meus ofícios de religião, como as outras irmãs. Não sirvo para escrever, não tenho saúde nem cabeça para isso..." (Jeronimo Gracián, Dilucidario dei verdadero espíritu, 1, 5: BMC, t. 15, Burgos, 1932, p. 16).


Mas Gracián e Velázquez venceram a resistência da Madre. Ela o reconhecerá no prólogo do Castelo, ao enfatizar quão difícil fora obedecer, repetindo os motivos de sua oposição: insuportável dor de cabeça, total ausência de inspiração literária; e seguia com uma velada alusão ao livro de sua Vida, que continuava em mãos das Inquisição, e a impossibilidade de trazer à memória as muitas coisas nele contidas. Por isso não refundirá o relato autobiográfico. Aterse-á às indicações dos dois conselheiros, sujeitando-se em tudo a seu parecer. Escreverá o novo livro não para seus confessores - como a Vida -, nem para gente douta - seria desatino fazê-lo -, mas para as leitoras de seus Carmelos, gente simples e olhos benévolos que acolherão com amor qualquer página sua.



Projeto modestíssimo, desenvolvido desde o primeiro capitulo do livro.

Tema da obra

Padre Gracián, que decidiu a composição do Castelo, estava certo de ter sugerido à Autora a linha temática. Quando ela resistiu a tomar a pena, alegando suas obrigações de coro e roca, além de suas dores de cabeça, Gracián insistiu:

"Eu a convenci com o exemplo de que algumas pessoas costumam sarar mais facilmente de doenças com receitas conhecidas por experiência do que com a medicina de Galeno, Hipócrates e de outros livros de muita doutrina. E que o mesmo pode acontecer com almas que seguem oração e espírito, que mais facilmente tiram proveito de livros espirituais escritos do que se sabe por experiência do que daquilo que leram e estudaram nos doutores... Porque como essas coisas do espírito são práticas e se põem por obra, melhor as declara quem tem experiência do que quem tem só ciência, mesmo que fale apropriadamente" (Gracián, op. cit., pp. 16-17).

A Santa se rende à insistência de Gracián, aceitando seu humilde papel de escritora "curandeira" da vida espiritual. No prólogo se propõe escrever coisas práticas, declarar algumas dúvidas de oração, ir falando com as monjas dos mosteiros carmelitas, pois as mulheres entendem melhor o linguajar umas das outras e o amor que as monjas lhe têm facilitará a mútua inteligência.
Mas esse projeto não se mantém nas páginas que seguem. Desde a primeira linha, focalizar-se-á o tema da vida espiritual em termos originais: o mistério do homem, com sua alma capaz de ver a Deus, e o mistério da comunicação com a divindade que nele habita. Surgirá em seguida o projeto de desembaraçar-se rapidamente dos temas introdutórios - primeiros passos da vida espiritual - para enfrentar o difícil tema, de que pouco se fala nos livros espirituais: últimas fases da vida cristã e pleno desenvolvimento da santidade.



De fato, a Autora aborda nos cinco capítulos iniciais todo o tema ascético que tomara quase todo o Caminho de perfeição, e reserva o resto da obra - 22 capítulos - para a jornada maior: entrada na terra santa da vida mística (moradas IV), união e santificação inicial (V), o crisol do amor (VI), consumação na experiência dos mistérios cristológico e trinitário (VII).
Plano da obra



No Castelo, a Autora se mantém fiel a si mesma e às diretivas de seu magistério. Não faz teologia a partir de teorias próprias ou alheias, ou a partir de um sistema. Parte sempre do dado empírico. Sua fonte é a experiência, enquanto a vida da graça é uma teofania do plano salvífico de Deus. Ela tem um jeito particular de assimilar o dado bíblico em textos incorporados a sua experiência, graças à sintonia com as grandes figuras bíblicas. E por fim é mestra na arte das comparações e na elaboração dos símbolos.


Três recursos serviram para organizar e estruturar o Castelo: um substrato de material autobiográfico, uma série de referências escriturísticas e uma trama de símbolos.


1. Suporte biográfico: O livro mantém o projeto inicial de refazer ou completar a Vida. Mas mudou de método. Aqui já não se tece uma narração autobiográfica, para depois oferecer ao leitor seu sentido teológico profundo. Essa havia sido, em grandes linhas, a montagem de relatos e teses na Vida. No Castelo, os planos autobiográfico e doutrinal se invertem para ser fundidos. Antes de tudo, dá-se uma lição de vida espiritual. Latente, abaixo dela, há um substrato de experiências pessoais que servem de suporte. O livro inteiro codifica a história da própria no plano da teologia espiritual.



2. Inspiração bíblica - Também aqui a Santa é fiel a sua vocação mística.
Não faz exegese nem exibe uma erudição bíblica que não possui. Ela evoca o dado bíblico com freqüência e aceno. Há textos sagrados que passaram a ser a substância de seu saber, vindo a converter- se em firmes colunas de sua vida espiritual. Ela geralmente os incorporou num momento crucial de seu drama interior. Agora, os textos emergem e dão lugar a uma lição. Cada morada está centrada em uma ou várias dessas unidades bíblicas.



Por outro lado, a Santa incorporou a seu mundo interior uma série de figuras bíblicas. Nelas, vê personificadas determinadas situações do processo espiritual. A conversão, em Paulo e Madalena; o risco permanente, em Davi, Salomão, Judas; a luta, nos soldados de Gedeão; os começos, no filho pródigo; a chegada ao umbral da mística, nos diaristas da parábola; o mistério da vida mística, na esposa do Cântico...


3. Os símbolos - É o recurso literário e doutrinal melhor manejado pela Santa. Ela não chega a elaborá-los com o grau de refinamento e a profundidade de São João da Cruz. Mas o que perdem em fineza e densidade ganham em sobriedade, transparência e eficácia pedagógica.

No livro se destacam quatro símbolos maiores: o castelo, as duas fontes, o bicho-da-seda e o símbolo nupcial. Poderíamos qualificá-los nessa mesma ordem: símbolo antropológico, o castelo; símbolo tomado da natureza, as fontes; de matiz biológico, o do bicho-da-seda; sociológico, o símbolo nupcial. Nenhum símbolo de envergadura cósmica, como os de São João da Cruz. Mas nas quatro criações teresianas, mais que o traçado e o calado, interessa a função de serviço doutrinal.



O processo: sete jornadas da vida espiritual

O castelo tem traçado linear. Estrutura e processo dinâmico coincidem. Em grandes traços os elementos estético- espaciais (fosso, porta, moradas, centro) correspondem aos funcionais vitais (penetração, luta, interiorização, transcendência).


A Autora ressaltou intencionalmente o conteúdo mistérico da vida cristã: alma, graça, Cristo, inabitação, pecado. Mas sem descuidar do lado prático. Fixou-se um duplo objetivo: comunicar sua experiência cristã, provocando-a no leitor, e comprometê-lo num programa concreto: lutar, conhecer-se a fundo, não perder de vista a exigência do amor - amar os outros -, manter-se sensível ao risco, programar e esperar. São as duas inflexões do magistério teresiano: mistagógica e pedagógica.

O processo descrito no castelo segue duas linhas: interiorização (linha antropológica) e união (linha teologal cristológica). Elas são desenvolvidas a partir de pressupostos simples: um ponto de partida, presença de Deus no homem; um ponto de chegada, união com Deus, quintessência da santidade; e um caminho a percorrer: oração como atuação da vida teologal, núcleo da vida cristã. Não há oração sem coerência com a vida concreta, e esta tem sua tábua de valores no amor aos demais. O que está em jogo não é o muito pensar, mas o muito amar; e amor é determinação e obras, mais que sentimento e emoção.


Materialmente o processo de vida espiritual descrito no livro divide-se em dois tempos, que poderíamos assim definir: ascético o primeiro, místico o segundo. A luta ascética, cujo protagonista é o homem, estende-se ao longo das moradas I-II-III; a vida mística, protagonizada pelo divino ator, predomina nas moradas V-VI-VII. Entre ambos os grupos, as moradas quartas são o vínculo, jornada em que se imbricam o natural e o sobrenatural.
Um sumário das sete moradas do processo pode ser traçado, mesmo com grave risco de oferecer uma visão empobrecida do panorama teresiano:


Primeira morada: entrar no castelo, converter-se, iniciar o trato com Deus (oração); conhecer-se a si mesmo e recuperar a sensibilidade espiritual.

Segunda morada: lutar; o pecado ainda cerca; persistem os dinamismos desordenados; necessidade de ancorar-se numa opção radical; progressiva sensibilidade na escuta da palavra de Deus (oração meditativa).


Terceira morada: a prova do amor. Estabelecimento de um programa de vida espiritual e de oração; manter-se nele; surgimento do zelo apostólico; mas sobrevêm a aridez e a impotência como estados de prova. "Prova- nos, Senhor, que sabes as verdades".

Quarta morada: brota a fonte interior, passagem à experiência mística; mas a sorvos, intermitentemente: momentos de lucidez infusa (recolhimento da mente) e de amor místico-passivo (quietude da vontade)".



Quinta morada: morre o bicho-da-seda; a alma renasce em Cristo; estado de união por conformidade de vontades, manifestada especialmente no amor ao próximo.

Sexta morada: o crisol do amor. Período extático e tensão escatológica. Novo modo de sentir os pecados. Cristo presente. Esponsal místico.

Sétima morada: matrimônio místico. Duas graças de ingresso no estado final: uma cristológica, outra trinitária. Plena inserção na ação. Plena configuração a Cristo crucificado.
Cristo foi a meta em todo o processo, da primeira à última morada.

d) Fundações

Lê-se o livro das Fundações com grande prazer. Narrativa de estilo ágil, cheia de imprevistos, brota como rio do coração ardente de Madre Teresa.

A primeira iniciativa deste livro surge na oração. A Santa diz que o Senhor lhe ordenou escrever a fundação dessas casas, dando-lhe a entender a necessidade de registrar a seqüência do surgimento dos mosteiros reformados. Essa iluminação se deu em data incerta, antes de 1573 (Relação 9). Seguramente em fevereiro de 1570.

Ela submeteu o preceito inspirado a sua habitual prova normativa: a aprovação de um confessor, que dessa vez vem por intermédio de Padre Jerónimo Ripalda três anos depois - 1573 - quando se encontra em Salamanca.

Ela passa a historiar onze anos de atividade fundacional, com o longo ínterim desde São José de Ávila a São José de Medina (1562-1567; Fundações, Pról. 2), seguido do dinâmico quatriênio de 1567-1571. Foram feitas sete fundações (à parte o primeiro mosteiro dos padres): Medina (1567), Malagón (1568), Duruelo (1568) Valladolid (1568), Toledo (1569), Pastrana (1569), Salamanca (1570), Alba de Tormes (1571).

Desde 25 de agosto de 1573, quando começa em Salamanca, até fevereiro de 1574, quando sai definitivamente dessa cidade para Alba e Segóvia, escreve os primeiros capítulos. Não podemos precisar o quanto foi escrito nesse período. Com segurança, escreveu os nove primeiros capítulos. A saída de Salamanca, que a exime da obediência a Padre Ripalda, e a maré de ocupações que sempre gravita sobre ela provocam uma interrupção, que não será definitiva. Os últimos meses de 1574 passados em Ávila são de relativa tranqüilidade. Durante esse tempo, escreve as Meditações sobre os Cantares.


É possível que também tenha avançado alguns capítulos das Fundações, não além do capítulo treze, escrito em 1575, quando, com o mosteiro de Almodóvar del Campo, as fundações de descalços chegavam a dez. Outros capítulos se seguirão, escritos em lugares e datas impossíveis de fixar, até o capítulo vinte, fundação de Aba de Tormes. Seguramente não se sentiu liberada da obediência ao Padre Ripalda, a ponto de suspender inteiramente a tarefa.


Quando a determinação de não avançar na narrativa se acentua, outro preceito, dessa vez do Comissário, Padre Gracián, fará avançar a história, para além do que fora feito até então.

Este é um dos momentos de mais intensa atividade literária de Santa Teresa. Desde o início de outubro até 14 de novembro, escreve sete capítulos, até o vinte e sete.

A Santa dá o trabalho por encerrado em 14 de novembro de 1576. Mas teve de recomeçá-lo, quando de 1580 até sua morte, fez quatro novas fundações: Villanueva de la Jara (1580), Palencia (1581), Soria (1581), Burgos (primavera de 1582), no mesmo ritmo de sempre, duas fundações por ano. Ao mesmo tempo das novas fundações ou imediatamente depois ia fazendo sua história, rematada com a de Burgos. É de supor que a presença de Padre Gracián, além de lhe recordar o preceito não-suspenso, supunha alento e ajuda para rematar a tarefa.
Conteúdo

O mandato de Padre Ripalda era preciso: escrever a fundação dos sete mosteiros fundados depois de São José de Ávila, junto com o princípio dos mosteiros dos padres descalços. Em segundo lugar, tratar algumas coisas de oração.


O relato das inumeráveis circunstâncias fundacionais multiplica as oportunidades para que se desencadeasse seu irreprimível magistério. Os capítulos 4-8 são uma longa interrupção do relato, que dá lugar a uma exposição sobre a doutrina teresiana da oração, sobre a conduta a manter perante revelações e visões. O capítulo 7 é magistral tratado sobre as distintas formas de neurose - humor, melancolia - freqüentes nos mosteiros. Sobre a obediência e sua necessidade na vida do espírito, como chave para evitar riscos, apresentada como segredo para superar a aparente antinomia entre contemplação e ação (caps. 4,2; 5, 6-7).


Os conselhos dirigidos às prioras, verdadeiros guias espirituais de suas filhas (caps. 7,8; 8,9). Desmascara sabiamente as diversas formas de mistificação espiritual que, sobretudo nos inícios, limitam com certos fenômenos místicos (cap. 6). A longa experiência teresiana da vida espiritual, dos riscos e embustes que a ameaçam, permite compreender a ênfase com que se redige o cap.



8. São sapientíssimas as normas de governo que dá a suas prioras (cap. 18), resumidas em uma palavra: discrição (18,7), sobretudo no que diz respeito à mortificação e à obediência. Preocupações constantes são a perseverança na fidelidade dos inícios (caps. 4, 6-7; 24, 6; 27, 12).
Entre outras preocupações e normas, termina o livro com a descrição da delicada passagem das descalças de Ávila à jurisdição da Ordem.

e) Relações


Pequena e densa autobiografia de Santa Teresa, na qual a Santa vai relatando as misericórdias do Senhor a sua alma. A série de escritos reunidos sob a epígrafe Relações e Favores não constitui um livro com unidade interna. Trata- se de um florilégio de peças heterogêneas, relatos autobiográficos de vivências interiores, consultas espirituais marcadas de segredo, anotações esparsas a modo de instantâneos para uso estritamente pessoal, formulação e motivações do voto de obediência ao diretor espiritual, avisos proféticos aos frades carmelitas descalços...

Os sessenta e sete fragmentos têm uma fibra comum, o dado místico, às vezes matizado de autobiografia, outras concentrado em um intenso esforço para descrever e ordenar as próprias experiências. Há relatos interessados unicamente em destacar a origem mística de um fato interior. Alguns favores divinos, brevíssimos, pretendem apenas fixar o papel da palavra de Deus, núcleo da experiência. Às vezes, acrescenta-se ao simplíssimo dado místico um sóbrio marco de reflexão pessoal.


A composição desse florilégio místico expande-se por um prazo de vinte e um anos, que cobrem quase todo o período literário da Santa. A primeira relação data de 1560, a última, de 1581. Apesar de se ignorar a data exata de grande parte dos acontecimentos místicos relatados e de vários favores, podemos distinguir quatro grupos cronológicos:

Anos da fundação de São José de Ávila, 1560-1563, nos quais escreve as três primeiras relações, ao mesmo tempo em que redige o Livro da Vida. Elas se dirigem aos primeiros confessores dominicanos, Pedro Ibáñez e García de Toledo.

Anos de ingresso nas sétimas moradas; supremas graças místicas; em grande parte sob a direção espiritual de São João da Cruz; 1569-1573.

Anos de crise e conflitos: acusações da Inquisição (em Sevilha, ela e sua comunidade; em Madrid, o livro de sua Vida); a Santa passa à direção espiritual de Padre Gracián: 1575-1577. Destacam-se três grupos: voto de obediência a Gracián: 39-40; duas relações destinadas a Padre Rodrigo Alvarez, motivadas - ao menos a primeira - pela intervenção da Inquisição de Sevilha: Relações quarta e quinta; favores referentes à pessoa de Gracián e novas graças místicas: 42-46.
Anos finais: 1579-1581. Duas peças de primeira qualidade: quatro avisos aos padres descalços, que contêm a mensagem definitiva da Santa aos responsáveis por sua reforma e última apresentação de sua alma ao diretor Alonso Velázquez, 1581 .

São sessenta e seis as Relações conhecidas, mas elas não foram as únicas que a Madre escreveu. Muitas não vieram à luz. Diversas circunstâncias aconselharam não publicar todas elas. Algumas tratavam de temas muito elevados da vida espiritual, outras referiam-se a pessoas ainda vivas quando da publicação dos livros da Santa (1588).


Quanto aos autógrafos, escritos em cadernetas e papéis soltos, existem deles algumas cópias. A mais autorizada está no Carmelo de São José de Ávila.

f) Conceitos do Amor de Deus

Um comentário ao Cântico dos Cânticos nos anos sessenta-setenta do século XVI! Escrito por uma monja!! Não é de estranhar que tenha tido história tão acidentada. Redigido, como outros livros, não apenas com o consentimento do confessor, mas por estrita obediência, foi lançado às chamas por ordem de outro confessor, Padre Diego Yanguas, O. P. em 1580. Santa Teresa o fez, "sem replicar, nem mostrar mudança no rosto" (BMC 18, p. 320).

Felizmente o livro foi várias vezes copiado, antes que se cumprisse a sentença do precavido e temeroso Yanguas. Padre Báñez afirmava que ele não continha nada que o ofendesse e aprovou o livro pela cópia de Alba de Tormes.

Não há certeza de que atualmente possuamos o texto na íntegra. O testemunho do Padre Ribera afirma que a Santa escreveu muito, redigindo-a várias vezes (quatro, segundo parecer de alguns).

A Santa não o intitulou, nem lhe deu divisões. Para ela estas anotações são meditações, desabafo familiar escrito com toda liberdade. O título Conceitos de amor de Deus e a divisão de capítulos ficou a cargo de Padre Gracián, seu primeiro editor (Bruxelas 1661).


O conteúdo doutrinal, além dos inumeráveis conselhos e ensinamentos, centra-se em duas formas de oração tratadas já na Vida e nas Moradas: a oração de quietude e de união. O grau mais alto de oração descrito é o de suspensão das potências (cap. 6).

Na atual edição, conserva-se o título dado por Gracián. O texto é o da cópia de Alba de Tormes, completado com o de Baeza. Em nota, assinalam-se as variantes das cópias de Consuegra e do Deserto de Las Nieves,

g) Exclamações da Alma a Deus

A esta série de breves e fervorosos desabafos teresianos, escritos sem nenhuma preocupação de ordem ou sistema, enlaçados pelo fio interior e Secreto da fogueira eruptiva que os provoca, Frei Luis deu o seguinte título: Exclamações ou meditações da alma a seu Deus escritas por Madre Teresa de Jesus em diferentes dias, conforme o espírito que Nosso Senhor lhe comunicava depois de haver comungado, ano de mil quinhentos e sessenta e nove (Edição príncipe, Salamanca, 1588, p. 269-304).

Trata-se de um diário sem data. Pelo que sabemos dessas anotações: forma e ocasião em que foram escritas, data de composição aceita não sem divergências pelos teresianistas, estranha que um escrito com essas características se interrompa em data tão precoce, sem nenhuma ampliação posterior...

O original não foi conservado, tampouco as numerosas cópias. A situação e as circunstâncias em que a Madre escreve definem a forma e a estrutura deste breve e inflamado texto teresiano. Como expressão de seus sentimentos não segue um plano orgânico. Alguns editores buscam imprimir-lhe ordem, pondo títulos aproximadamente descritivos.

Percebem-se os mesmos sentimentos reiteradamente presentes em seus escritos: sentimento pela ausência de Deus, pelo tempo em que viveu afastada Dele, tempo perdido, a misericórdia e a grandeza de Deus, a vida, barreira que retarda a chegada definitiva do encontro, a adorável Humanidade de Cristo, que sofre e busca as almas, Deus justo juiz, o tormento das almas que se perdem...

h) Constituições

Estas Constituições "foram extraídas das Constituições antigas da Ordem, e dadas pelo Reverendíssimo Padre nosso, mestre frei Juan Bautista Rubeo de Rávena, prior geral. Depois, o reverendíssimo Padre frei Pedro Femández, visitador apostólico desta Ordem por nosso santíssimo Padre Pio V, acrescentou algumas atas e declarava algumas das Constituições; eu também acrescentei algo visitando com comissão apostólica esta congregação dos carmelitas descalços..." (Padre Gracián, na dedicatória da edição príncipe, Salamanca 1581, BMC VI, Burgos, 1919, p. 412).


Em virtude do breve pontifício de 2 de fevereiro de 1562, a Santa não apenas dá impulso a sua tarefa fundacional, mas se vê autorizada a determinar o estilo de vida religiosa da nova comunidade. Difunde mais que rapidamente alguns Estatutos, brevíssimos mas bem pensados. São núcleo primeiro das Constituições de seus Carmelos, redigidas em Ávila antes de 1567, ano em que as submete à aprovação do Geral da Ordem. Serão essas as páginas que, no ano seguinte (1568), servirão de base a frei João da Cruz e a seus companheiros para pôr em marcha a vida reformada em Duruelo.


A evolução do texto primitivo - hoje perdido - é por demais acidentada. Por um lado, o desenvolvimento da Ordem e a crescente experiência da Santa aconselhavam mudanças e acréscimos. Por outro, os Visitadores dos Carmelos teresianos, especialmente os Padres Pedro Fernández, Gracián e Roca, foram introduzindo "atas" e modificaçoões, nem sempre do agrado da Autora. E para arrematar, não faltaram inconseqüentes arbitrariedades de alguma priora, que, pensando nada fazer, tira e põe o que lhe dá na veneta, ao transcrever as cópias enviadas pela Santa. Conseqüência: os textos "andam diferentes", levando os diversos Carmelos à tentação de inquietude e desconcerto.


Tudo isso implicava para o texto primigênio da Reformadora sério risco, que ela procura remediar por todos os meios, urgindo a elaboração de uma redação definitiva.

Pode-se seguir esse angustioso desejo teresiano através da intensa correspondência mantida com Gracián nos primeiros meses de 1581: "Nesse caso não pretendo entrar em entendimento com ninguém além de vossa Reverência" (Carta de 17-2-1581). Em março de 1581, conseguirá que finalmente o Capítulo de Alcalá dê o último retoque a seu texto constitucional e que Gracián o publique quanto antes.


Está publicado o texto teresiano anterior aos retoques dos capitulares de Alcalá. Na falta de um autógrafo, seguimos o texto preferido por Padre Silvério de Santa Teresa em sua edição crítica, que procede de uma cópia oficial conservada no arquivo dos carmelitas descalços de Madrid.

i) Modo de Visitar os Conventos

O presente opúsculo foi escrito em Toledo, no verão de 1576, por ordem de Padre Gracián, que declara:

"Escreveu a minha instância uns avisos que hão de ser observados pelo prelado que quiser produzir fruto em suas visitas às monjas descalças, pelos quais me guiei todo o tempo em que durou o ofício" (Jerônimo de São José, História del Carmen Descalzo, L. 5, cap. 12, p. 876).

Iniciado pela Autora com a costumeira resistência, logo mereceu plena dedicação. O destinatário o acolheu com veneração, leu e praticou, retocou e anotou moderadamente, sem chegar a editá-lo.


Em 3 de outubro de 1612, a Consulta, órgão supremo da Reforma teresiana, decretava sua edição. Entretanto, o autógrafo fora discretamente requisitado por Filipe II para sua Biblioteca do Escorial, utilizando-se dos serviços de Padre Dória, que, em junho de 1592, escrevia uma carta bem ilustrativa ao Dr. Sobrino, professor da Universidade de Valladolid:

"Sua Majestade deseja ter em São Lourenço Real os livros originais da boa Madre Teresa de Jesus, e nossa religião alegra-se muito com isso. E visto que vossa mercê tem dois deles [Fundações e Modo de visitar], ordenaram-me escrever a vossa mercê seja servido mandar-nos entregar à pessoa que o reverendíssimo frei Diego de Yepes, prior de São Lourenço, assinale, para que se cumpra o intento de Sua Majestade e estejam os livros guardados onde tão bem e com para maior honra da boa Madre se guardarão. Pelo bem que vossa mercê demonstrou querer-lhe, entendo lhe será motivo de muita alegria... de Madrid, 3 de junho de 1592" (Antônio de São Joaquim, Año teresiano, t. VII, Madrid 1758, p. 145).


Pouco depois, em 18 de agosto do mesmo ano, os dois autógrafos eram oficialmente entregues à Biblioteca Régia.


Ali nosso livrinho foi descoberto pelo mais famoso discípulo de Doria, Alonso de Jesús Maria: "Achei muito conveniente mandar imprimir este breve tratado das visitas, que achei no Escorial entre os originais da mão de nossa Santa Madre, que ali mantém guardados o Rei nosso Senhor" (carta-prólogo à edição príncipe).

Em 1613, é impresso por Alonso Martín de Madrid, com flamante introdução de Padre Alonso, em formato pequeno (10x7cm), 43 folhas. Gracián ainda vivia, mas não só omitiram seu nome, como manipularam habilmente as alusões a sua pessoa (n. 45, 49) e suprimiram a carta-epílogo a ele dirigida (n. 54-55).


Só em meados do século seguinte os críticos tentaram fazer justiça a Gracián e à Santa. Mas a depuração do texto só se deu por completa na edição crítica de Padre Silvério (Burgos 1919, tomo VI da Biblioteca Mística Carmelitana).


Como de costume, a Santa não intitulou o escrito. "Avisos" foi como o chamou singelamente Gracián. Uma mão tardia escreveu no autógrafo:
Modo de visitar os conventos de religosas escrito pela Santa Madre Theresa de Jesus, por mandado de seu superior provincial, frei Gerónimo Gracián de la Madre de Dios.

E este título coincide quase materialmente com o da edição príncipe, passando a ser mantido por todos os editores.

O conteúdo do livro é um elenco de sugestões brindadas com fragrante simplicidade e suave fineza aos visitadores dos Carmelos. Páginas de nítida transparência e soberana eficácia. Nada de voejos místicos nem tresnoitado adorno monacal. Espontaneidade franca e puro senso comum; penetração psicológica e potente realismo. A Santa Fundadora quer mão firme no mando, um superior que seja cabeça de suas súditas, que não se dobre, mas que seja compreensivo, com visão certeira e critério na exata medida. Tais são os valores substanciais desta obra.

A atual edição reproduz diretamente o autógrafo com a esperada correção da pontuação, numeração de parágrafos e modernização ortográfica.

j) Certame

Durante a oração, Santa Teresa ouviu as palavras: "Busca-te em mim", que remeteu a seu irmão, Lorenzo de Cepeda, para que as meditasse. Ele levou isso tão a sério, que, sentindo-se incapaz de penetrar seu sentido, buscou o conselho de seus amigos e fez uma sério e solene consulta no locutório de São José, da qual tomaram parte Julián de Avila, Francisco de Salcedo, São João da Cruz e as monjas do mosteiro. As respostas foram enviadas à Madre Teresa, que se encontrava em Toledo. Não se conserva nenhuma delas, exceto a de Lorenzo de Cepeda. Conserva-se o parecer da Santa às respostas neste escrito intitulado Certame, jargão literário de seu tempo.


A Santa formula ironicamente seu parecer, a partir de um critério original. Sua graça e ironia folgazã transbordam em cada palavra. Antecede uma breve introdução e segue, em ordem, o ditado da sentença contra os quatro: Salcedo, Julián de Avila, São João da Cruz e Lorenzo de Cepeda.


O texto autógrafo da Santa se conserva nas Carmelitas Descalças de Guadalajara, exceto a resposta a Lorenzo (n. 8-9). Sobre ele se baseia a edição atual. Os últimos números, foram tomados da primeira edição do Certame, feita por Palafox no tomo I das cartas da Santa (Zaragoza 1658, p. 54-59), corrigida pelo ms. 12.674 da Biblioteca Nacional de Madrid.

l) Resposta a um Desafio

Brevíssimo escrito, espécie de versão literária, para o campo espiritual, dos antigos torneios ou justas de cavalaria, muito difundida nos primeiros tempos da Reforma.

Um cavaleiro (talvez Padre Gracián, jovem noviço em Pastrana), secundado por outros "cavaleiros e filhas da Virgem", envia um desafio às monjas da Encarnação. Elas aceitam o repto e respondem, dispostas a entrar na liça.


Desconhecemos o texto do desafio, que sem dúvida incluía arrogantes penitências, alheias à discrição e ao estilo pedagógico teresiano. As respostas se situam num nível menos espetacular e mais autêntico. São vinte e quatro, das quais vinte e duas correspondem ao empenho espiritual das monjas da Encarnação; a última, a mais humorística da série, é a resposta da Madre Priora, Teresa de Jesus, precedida em alguns números por um "aventureiro" que se dirige ao "mestre de campo", que com toda probabilidade oculta a figura de frei João da Cruz, então confessor do mosteiro.


O escrito data provavelmente de fins de 1572 ou princípios de 1573,.
Até o século XVIII, o autógrafo se conservava no mosteiro das Carmelitas Descalças de Burgos e de Guadalajara. Perdido em data e circunstâncias desconhecidas, resta uma cópia na Biblioteca Nacional de Madrid, ms. 6615, obtida do original já incompleto.
A atual edição apresenta o texto da Biblioteca Nacional de Madrid.

m) Poesias

A própria Madre confessa não ser poeta, mas sabe por experiência que há uma presença de Deus que "desatina e embriaga" e desencadeia a torrente milagrosa dos versos:

"Sei de alguém [ela mesma] que, não sendo poeta, improvisava estrofes muito sentidas, declarando seu penar, não usando para isso o intelecto" (Vida 16, 4). Mas os seus contemporâneos testemunham que é poetisa, não apenas quando o transe misterioso desencadeia esses ímpetos. O gosto pela poesia é qualidade bem característica de sua personalidade rica, pronta, aberta ao estímulo de mil situações nas quais pressinta o despertar da beleza.

Na poesia, dá-se o mesmo que ocorre na prosa: ela não tem preocupações acadêmicas. Escreve com simplicidade e espontaneidade, na mais apurada lírica popular, cuja temática conhece e consegue verter para o divino. Os temas de suas poesias são os mais variados: místicos, humorísticos, canções de natal, dedicatórias familiares, formando um corpus poético muito limitado, mas com certeza anteriormente muito mais amplo e copioso.

O caráter ocasional dessas composições e sua destinação às celebrações domésticas da comunidade fizeram com que os autógrafos não chegassem até nós.

As edições modernas seguem baseando-se na cópia realizada no século XVIII por Padre Andrés de la Encarnación, atualmente conservada no ms. 1400 da Biblioteca Nacional de Madrid.


n) Cartas


Destas Cartas haveria muito a dizer. Desde o Pe. Jerónimo Gracián de la Madre de Dios - báculo da velhice (Tb 10,4) da Santa - até nossos dias, largamente se tem escrito sobre elas, e coisas interessantes e acenadas. Diremos apenas algumas palavras que parecem necessárias, quer para melhor compreensão, quer para maior apreço desta correspondência que, à primeira vista, pode não revelar todo o seu valor aos leitores que não conhecem as Obras, e a vida da Santa Reformadora do Carmelo.

Na realidade, as Cartas põem o selo à santidade de Teresa. Guiada pelo Espírito de Deus, escreve não por gosto ou passatempo, mas para tratar sempre dos interesses de seu Senhor, no que há de mais ingente e no que há de mais pequenino. É a realização de seu estribilho predileto:




"Que se me dá a mim, Senhor, de mim, senão de Vós?"

Dirige-se a irmãos e parentes. São cartas familiares e despretensiosas, como os que qualquer pessoa escreve. Trata de saúde, de negócios, de toda sorte de acontecimentos; mas, em poucas palavras salpicadas aqui e ali, mais os guia e encaminha para Deus através de todas e vicissitudes da vida, melhor do que o faria com longos sermões.


Escreve às filhas; com ternura, graça, sabedoria e fortaleza! Não tem necessidade de dissertar com elas longamente sobre assuntos espirituais. Já lhes disse tudo - não só às contemporâneas mas a todas as vindouras através dos séculos - em suas Obras, nas quais tantas vezes repete: filhas minhas, minhas filhas, amigas etc. Os assuntos são os mais variados: é mãe, mestra, luz, fogo de caridade, vela sobre tudo, nada esquece.

Dirige-se a toda sorte de pessoas: tanto às altamente situadas - benfeitores, fundadores, Prelados, e até à própria Majestade de Filipe II - como aos modestos, humildes e pobres. Até o fim da vida, sempre que tinha portador, escrevia algumas linhas e mandava um presentinho a uma pobre mulher que lhe arranjara um ovo numa fundação. E com todos é sempre a mesma, dando a cada um o que lhe é devido.

Dela se pode dizer que se fez tudo para todos, para ganhar todos a Cristo, a exemplo de S. Paulo (1 Cor 9,22).


Com seus confessores é de uma reverência, sujeição, amor sobrenatural que bem mostram como neles vê o próprio Cristo. Que solicitude maternal! Vela sobre a saúde, a hospedagem, o agasalho, a montaria, o sono, o trabalho, enfim sobre todas as necessidades e vantagens no temporal e no espiritual.



Com os Descalços, seus filhos, em particular com Pe. Gracián, trata dos negócios da Reforma, da perfeição da Ordem, da santidade individual e geral, dos diversos pontos de observância, sem esquecer os cuidados com a saúde e os temores de que se prejudiquem pelo demasiado rigor da penitência.


E é de notar a despreocupação total de escrever bem e de parecer santa. Diz o que se passa - a verdade que tanto ama -, jamais faltando à prudência, à caridade ou a qualquer virtude, mas com santa liberdade como quem já vive mais no céu que na terra.

Quando é preciso, sabe repreender e reprovar fortemente o que foi malfeito, sobretudo naqueles que mais ama, porque os quer santos e todos de Deus.

E é de ver essa alma tão sublime - que nem um instante, ainda no meio do maior rebuliço, perde de vista a seu Deus, e vive a consumir-se nos ardores de um amor seráfico - acudir a todas as necessidades humanas, sem distinguir entre amor de Deus e amor do próximo. Alegra-se com uns, chora com outros; anima, aconselha, encaminha e guia mesmo em negócios temporais; pede um auxílio ou emprego para um; solicita uma carta de recomendação para outro; trata de vocações religiosas e de casamentos; de compras, vendas, empréstimos, modo de aplicar o dinheiro, doenças, remédios... em suma de tudo quanto ocorre na vida.

Parece muito; entretanto as cartas autênticas chegadas até nós são apenas uma parcela, talvez mínima, das que a Santa Madre escreveu, e isto, além do uso das "cifras", ou nomes previamente convencionados, torna obscuras e difíceis de entender certas passagens, por falta de esclarecimentos contidos em cartas anteriores ou posteriores. Nem é de admirar que não se tenha conservado a correspondência em tempos de tanta perseguição, quando corria perigo de ser violada e ocasionar gravíssimos males. Por outro lado, a própria Santa Madre, assim como ordenou a Ana de Jesús, conforme esta declara,

Terá ordenado a suas filhas e a outras pessoas, que rasgassem suas cartas, apenas lidas. O que mais nos desola, porém, é não terem chegado até nós as cartas, certamente numerosas, dirigidas a S. João da Cruz. Conta seu biógrafo, o Pe. Jerónimo de San José, que um dia, no Convento do Calvário, aquele admirável amante do despojamento e do nada, temendo apegar-se a uma trouxinha de cartas da Madre Teresa que levava consigo por toda parte onde ia, lançou mão delas e, na presença do mesmo Pe. Jerónimo, atirou-as ao fogo.


Esta tão grande atividade epistolar, que lhe era por demais penosa e muitas vezes se prolongava até a madrugada, é inexplicável sem especial assistência divina, se considerarmos seu organismo débil e doentio desde a adolescência; suas muitas e graves enfermidades; seus trabalhos e viagens, tudo unido à observância de uma Regra austera e a penitências e macerações voluntárias.


Nada iguala a sua solicitude de Mãe e Reformadora. Hoje, com tantos meios rápidos de comunicação, não seria tão difícil; mas naquele tempo, em que era preciso aguardar o almocreve ou o arrieiro, ou expedir um próprio, malgrado a pobreza do mosteiro, a Santa Madre estava sempre à testa de tudo. Dirigia compras de casas ou terrenos, construções, aceitação de fundadores, admissão de noviças e dotes, contratos e todos os mais negócios, com mão firme e saber lúcido.


Nas sétimas Moradas, aliás, a Santa explica como a alma chegada ao matrimônio espiritual pode tratar das coisas materiais sem distração nem prejuízo, e até melhor do que antes.

Onde, porém, mais avulta nas Cartas a personalidade assombrosa da Fundadora é na guerra de morte feita durante mais de quatro anos à sua Reforma, com o fim de aniquila-la ou ao menos reduzi-la a proporções ridículas.

O Senhor poderia dizer-lhe, então, como a S. Pedro: "Satanás vos pediu para vos joeirar como ao trigo..." (Lc 22, 31).


Por permissão divina, embora erradamente, o próprio Geral da Ordem, que fora pai da Reforma e da Santa, a quem chamava "la mia figlia", determinou extinguir o que antes aprovara tanto.

S. João da Cruz é raptado e metido no cárcere do Carmo Calçado, em Toledo, onde penou durante nove meses.

Os principais Descalços, perseguidos, malvistos - presos e excomungados alguns deles -, perdem a cabeça, deixam cair as armas, e com suas imprudências agravam a situação.

O exército de Maria está em desordem, em debandada. Só a Santa Madre, mais atingida que todos e com ordem de retirar-se a um mosteiro de onde nunca mais saia a empreender novas fundações, conserva-se como generalíssima no seu posto, defendendo não a sua obra, não os seus interesses, mas os interesses e a obra de Deus.



Logo às primeiras ameaças da borrasca, traçara o plano a seguir; mandar a Roma Descalços que solicitassem do Padre Geral e, em caso de necessidade, do próprio Papa, a separação canônica entre a antiga Observância e a nova, que formaria Província autônoma sob a dependência do Generalíssimo da Ordem. Para garantia de sucesso, alcançar que o Rei, sempre favorecedor da Reforma, encarregue de patrocinar a causa da Madre Teresa a seu Embaixador em Roma.



Quanto dissabor evitado, quantas pedras de escândalo removidas do caminho se houvessem os soldados obedecido à voz de comando da chefe! Mas a Santa clamou no deserto.

Desencadeou-se a tempestade. Teresa já idosa, sozinha, tendo contra si e os seus o próprio Núncio e os mais altos representantes da Ordem, enfrenta sem temor os adversários, com a humildade singela que lhe é própria.


Escreve a uns e a outros; defende, aconselha, anima, traça planos e consegue reunir um punhado de amigos que, sob sua direção, pugnam pela Reforma. O eminente Frei Silvério de Santa Teresa calcula em cinco mil as cartas nesse período tenebroso.

Empregava todos os meios humanos, mas não se estribava só neles: orava, fazia penitência, chorava com o Senhor, como outrora ao ter notícia dos estragos produzidos pelos luteranos na Igreja de Deus. Em todos os mosteiros da Reforma fazia-se o mesmo.

Finalmente esta Santa admirável, em cujas veias parecia correr o sangue heróico dos Macabeus, salva do extermínio a sua Ordem.

O Breve pontifício pelo qual o Carmelo Descalço foi constituído em Província traz a data de 22 de junho de 1580, mas só pode executar-se em 3 de maio do seguinte ano. A Santa ainda viveu até 15 de outubro de 1582, e, nesta última fase de sua vida, continuou a manejar a pena - uma das principais armas com que promoveu a glória de seu Senhor.

Antes de morrer, tem o supremo consolo de ouvir da boca de S. Luís Beltrão, dominicano, a profecia de que dentro de cinqüenta anos sua Ordem será uma das mais ilustres da Igreja de Deus.

A atual edição das Cartas de Sta. Teresa baseia-se nos autógrafos da Madre e nas cópias mais autorizadas feitas por carmelitas descalços nos séculos XVII e XVIII. É oferecido ao leitor as cartas em ordem cronológica, numa transcrição que evita tecnicismos e atualiza a grafia, a partir das cartas autenticadas por frei Tomas Alvarez.

Louvemos a Deus, admirável em seus santos (Sl 67,36).


fonte : Ordem do Carmo

Eu me consumo de Zelo pelo Senhor Deus dos Exércitos !

(Santo Elias)